SOBRE MAFIAGATTI
BIOGRAFIA
João Mafiagatti é artista visual e fotógrafo. Nascido em Salvador, onde vive e trabalha, estudou Cinema na PUC-Rio. Sua obra se forma a partir de uma relação íntima com a Bahia — não como tema, mas como campo de experiência, memória e percepção.
Em sua fotografia, Salvador não se oferece como paisagem. A cidade se revela nas pessoas que a vivem, em seus gestos, relações, modos de trabalho, deslocamentos e maneiras de ocupar o espaço. Mafiagatti reconhece na Bahia uma cadência particular, perceptível na postura, no movimento, na pausa, na proximidade entre as pessoas e na maneira como cada presença se inscreve na vida cotidiana. Há nessa experiência uma sensualidade própria, entendida não como atributo dos sujeitos fotografados, mas como uma qualidade sensível da própria Bahia — de sua luz, de seu ritmo, de sua relação com a rua, com o tempo e com a vida.
É nesse território que sua fotografia se estabelece. O interesse de Mafiagatti não está no corpo como objeto, mas naquilo que a presença humana é capaz de revelar. Um gesto, uma forma de permanecer, um instante de trabalho ou de descanso podem concentrar histórias, afetos, conhecimentos e modos particulares de existência. A imagem nasce dessa atenção: da possibilidade de reconhecer, dentro de acontecimentos aparentemente ordinários, uma dimensão que é ao mesmo tempo individual e profundamente ligada à experiência coletiva de Salvador.
CORPO E CIDADE
Iniciado em 2020, Corpo e Cidade desenvolve-se a partir da convivência prolongada de Mafiagatti com feiras, mercados, praias e circuitos de trabalho informal de Salvador. Vendedores ambulantes, pescadores, feirantes e trabalhadores aparecem como indivíduos inseridos em universos sociais dos quais o artista se aproxima ao longo do tempo. A fotografia resulta dessa proximidade e da observação das relações que essas pessoas estabelecem entre si, com seu trabalho e com a cidade.
O projeto recusa uma tradição de representação que transforma trabalhadores populares em tipos sociais, personagens pitorescos ou imagens de carência. Cada pessoa preserva sua singularidade. Mafiagatti não procura falar por aqueles que fotografa nem fazer de suas vidas ilustrações de uma condição social. Seu interesse está em reconhecê-los como sujeitos de uma cidade que também constroem: pessoas portadoras de histórias, saberes, desejos, vínculos e formas próprias de compreender e habitar o mundo.
A dimensão social de Corpo e Cidade surge justamente dessa atenção ao indivíduo. O cotidiano de Salvador é percebido a partir daqueles que, por meio de seu trabalho e de suas relações, sustentam grande parte de sua vida pública. Nesse encontro entre experiência particular e espaço coletivo, a cidade deixa de ser uma abstração. Ela ganha espessura através das pessoas que diariamente a inventam, preservam e transformam.
Há também nas imagens uma compreensão muito particular da Bahia. Mafiagatti percebe uma espécie de ritmo interno que atravessa sua vida cotidiana — uma alternância entre intensidade e repouso, força e delicadeza, rigor e improvisação. Essa malemolência, essa sensualidade e essa poesia não são construídas para a fotografia; são reconhecidas pelo artista como elementos de uma experiência cultural mais ampla, observada sem a necessidade de convertê-la em folclore ou exotismo.
Sua obra se inscreve, assim, em uma tradição visual na qual a Bahia é simultaneamente experiência concreta e território imaginário. Mafiagatti trabalha a partir dessa herança sem procurar reproduzi-la. Seu olhar pertence ao presente e à sua própria experiência de Salvador. As imagens procuram compreender aquilo que permanece e aquilo que se transforma em uma cidade onde diferentes tempos históricos, formas de trabalho, crenças, desejos e maneiras de viver continuam coexistindo.
CIRCULAÇÃO
Durante a pandemia de Covid-19, em 2020, quando o acesso às praias de Salvador foi temporariamente interditado, Corpo e Cidade ultrapassou o campo convencional da fotografia e passou a ocupar diretamente o espaço urbano. Grandes ampliações em lambe-lambe foram instaladas sobre os tapumes que impediam o acesso ao litoral e, posteriormente, em túneis, viadutos, áreas de circulação e na Feira de São Joaquim.
Esse deslocamento era também uma mudança de relação entre imagem e cidade. Fotografias realizadas a partir do convívio com Salvador retornavam aos lugares onde essa experiência havia se constituído. As pessoas representadas deixavam de existir apenas dentro do espaço delimitado da fotografia para reaparecer, em escala pública, no território ao qual pertenciam. A cidade tornava-se simultaneamente origem, assunto e lugar de circulação da obra.
Em 2021, Corpo e Cidade alcançou circulação internacional, integrando uma exposição no Parque del Retiro, em Madri, em projeto apresentado pela Iberdrola e pela Cultura Inquieta. No mesmo ano, o trabalho foi apresentado na Galerie Paris Horizon, no Marais, em Paris.
A prática de João Mafiagatti parte de uma compreensão essencial: uma cidade não existe separada das vidas que a constituem. Salvador aparece em sua obra através de encontros, gestos, trabalhos, afetos e experiências individuais que, reunidos, formam algo maior do que qualquer representação isolada da cidade.
Mafiagatti não procura explicar a Bahia nem fixá-la em uma imagem definitiva. Sua fotografia permanece próxima daquilo que nela é vivo e irredutível — sua complexidade, sua sensualidade, sua dureza, sua luminosidade, suas contradições e sua poesia. E, sobretudo, das pessoas. Porque é nelas que a Bahia deixa de ser ideia, imagem ou paisagem e se torna presença. É nelas que a cidade guarda sua memória, revela suas contradições e continua, todos os dias, inventando a si mesma. É nesse ponto que Corpo e Cidade encontra sua força: quando já não há exterioridade entre quem vive e o lugar vivido. A cidade atravessa o indivíduo, e o indivíduo a prolonga. Entre ambos, o limite desaparece.